terça-feira, 18 de novembro de 2008

Os méritos não são nossos




Este final de semana pude enxergar o que estava visível mais nunca tive a sensibilidade de colocar meus olhos. Fazendo o que mais gosto que é sentir o vento, olhar a paisagem e deixar os pensamentos a persuadir-me e mostrar qual será meu próximo caminho que devo percorrer. Lá eu via um pequeno riacho quase secando por completamente, a planície tão verdejante que contrastava com o céu tão azul e nuvens tão brancas que pareciam um recital com barulho do vento batendo nas folhas das árvores e cavalos rodeando calmante toda planície. Já tinha visto cenas semelhantes, por inúmeras vezes, com belos pensamentos de esperança e motivação que esta visão nos dá. Mas a algo parecia falar comigo mostrando o que sempre buscamos, a liberdade, paz, tranquilidade, amor e tantas outras coisas que queremos e não podemos tocar, apenas vivenciá-las e senti-las.
Ora quanta nostalgia, mais um texto para entendermos algo especial, admito que também. Como não relaxar a acordar melhor depois de ouvir tal historia. Mas não se trata disso, trata-se de que independente dos cenários que me apareçam, pode ser uma tempestade se formando e ver que não tenho para onde correr e que ela me alcançará e poderá levar aquilo que tão duramente conquistei. Pensei qual era minha base? Onde eu estava enraizada? O que me fazia continuar, mesmo não tendo para onde ir. Vi que somos mais que isso, que a liberdade, o amor e o que tanto queremos encontrar já foi dado, a preço alto, a duras custas, com dores e gemidos de alma, só que silenciosamente, dado de graça por puro amor, não o amor que dizemos ter uns pelos outros principalmente em relações íntimas em que deixamos de gostar quando uma pessoa nos decepciona por motivos tolos ou sérios. Mas um amor que nos constrange que nos deixam envergonhados, rendidos, caído de joelhos e em prantos buscamos esse AMOR essa PAZ essa LIBERDADE que nosso espírito anseia e à busca desesperadamente. Enfiando os pés pelas mãos, por não saber onde encontrar. Então descartamos o que era precioso por não encontramos tais coisas.
Talvez tudo isso já teria passado por mim, e eu simplesmente ignorei, por me achar confiante, sabia demais ou por julgar não merecer. Mas sempre esteve lá, calmamente esperando meus olhos despertarem e as escamas caírem. Eu corria atrás do vento, achando que pegaria com minhas próprias mãos. Mas o que eu preciso os humanos não me dará, nenhuma riqueza suprirá. Percebi que muitas vezes devemos nos esconder para sair e saber quem somos verdadeiramente, que nada que esta lá fora trará e nos saciará no que realmente precisamos. Assim, poderá vir tempestades e tirar toda a beleza das árvores e as deixar desnudas que saberei que jamais irei perder o rumo, pois sei onde minha rocha esta fincada. Qual é a fonte que me nutri, de onde tenho refúgio, de onde tiro a fortaleza que preciso para continuar de pé. Vi o quanto enfermos estamos, o quanto buscamos coisas erradas em riquezas dessa vida em posses que nunca serão nossas de fato, ou em vidas que jamais teremos, pois não são de propriedade nossa, mas pertencem há quem disse que pagou com preço alto. Tudo aqui é emprestado e deverá ser devolvido. Como a parábola tão sabia do semeador, que tudo será retirado no momento oportuno. E saberemos então se nossas obras, nossas mãos contêm ouro refinado ou estarão vazias ou sujas.
Sou feliz mesmo que o vento que tanto gosto se enfureça e vire um vendaval, o que eu busco eu encontrei, ou fui encontrada, por Ele? Sei por que aqui estou e para onde quero ir, onde nem meu coração até hoje experimentou tamanha sensação, que meus olhos verão e tocarão e que está reservado para os que têm sede, fome e ousadia de perseverar e alcançar. Os méritos não são nossos...... “Pois agora eu sei que o Teu fluir é melhor do que tudo que conheço. Tua presença é maior do que tudo que anseio, tudo que posso é render-me a Ti e dizer-te que eu te amo meu Jesus. Teus cabelos ungidos estão com o óleo de alegria Tua fragrância é mais doce que o perfume das flores Tudo que posso é recostar-me no teu peito, cheirar os Teus cabelos, me embriagar no Teu amor”....Que este sim que será para sempre.

Kel Marques

Saúde Mental

Saúde mental
Por Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. Eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maikovski suicidou-se. Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido complemente esquecidos.Mas será que tinha saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa...Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pela ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra se denomina software, "equipamento macio". O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparecolho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem. Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeito no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave-de-fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos.. Por isso, quem trata das pertubações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas. Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano, tem uma pecularidade que o diferencia dos outros: o seu "hardware", o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o hardware, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou. Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um soft modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahams e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o roque pode ser tomado à vontade. Quando às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato. Seguindo esta receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.